Por Que "Inclusão" Pode Estar Excluindo — E Como Jesus Realmente Acolhia
📖 Aqui está a pergunta que ninguém quer fazer: E se a linguagem que usamos para "incluir" estiver, na verdade, excluindo? E se ajustes gramaticais bem-intencionados estiverem mascarando uma capitulação ideológica? Este artigo explora o debate sobre linguagem neutra nas igrejas protestantes brasileiras — com discernimento reformado que equilibra fidelidade bíblica e empatia pastoral.
A Gramática Virou Campo de Batalha Teológica
Vamos começar com uma cena real.
É domingo de manhã. Você entra na igreja. O boletim impresso diz: "Bem-vindes, todes". No culto, o pastor evita pronomes de gênero ao falar de Deus — "Criador" em vez de "Pai". Na célula jovem, alguém é corrigido por dizer "irmãos" em vez de "irmãos e irmãs".
Isso não é ficção distópica.
É realidade em algumas comunidades protestantes brasileiras. Há casos de denominações que publicaram seu próprio manual sobre linguagem inclusiva, gerando debates internos e nas redes sociais sobre os limites entre acolhimento pastoral e conformidade ideológica.
Aqui está o que torna isso fascinante: O debate não começou ontem.
Suas raízes vêm dos anos 1970, quando o feminismo de segunda onda — pensadoras como Monique Wittig — questionou o masculino genérico como ferramenta de invisibilização. Nos anos 2000, Judith Butler expandiu a crítica com a teoria queer: se gênero é "performance" social (não essência biológica), então a linguagem binária seria opressiva.
No Brasil, o movimento explodiu em 2015 com o "Sistema Ile" de Pri Bertucci — propondo "@", "x" ou "e" como alternativas neutras. Em 2021, o STF reconheceu o direito ao nome social de pessoas trans. Em 2023-2024, leis estaduais tentaram proibir a linguagem neutra em escolas, mas foram derrubadas por inconstitucionalidade.
Vamos descompactar isso:
Para igrejas protestantes, a questão não é apenas gramatical. É teológica. A linguagem neutra carrega boas intenções, mas não é neutra. Ela impõe pressupostos filosóficos que conflitam com a antropologia bíblica de Gênesis 1.27 — "homem e mulher os criou".
Mas antes de criticar, precisamos fazer algo radical: entender honestamente os argumentos favoráveis.
Como Timothy Keller nos ensina, caridade intelectual é marca de maturidade cristã.
Por Que Pessoas Inteligentes Defendem Linguagem Neutra? Três Razões Legítimas
Aqui está o que descobri ao estudar os defensores mais sérios:
1. A Linguagem Molda a Realidade (E Eles Têm Dados Para Provar)
Defensores não estão inventando isso.
A hipótese Sapir-Whorf sugere que estruturas linguísticas influenciam percepções. Estudos psicolinguísticos mostram que o masculino genérico ("todos os homens") leva crianças a visualizarem figuras masculinas em profissões — afetando aspirações de gênero.
No Brasil, cerca de 2% da população adulta se identifica como trans ou não-binária (aproximadamente 3 milhões de pessoas, segundo estudo da UNESP 2021).
O argumento: Pronomes neutros promovem visibilidade e dignidade.
Para progressistas cristãos, isso ecoa Gálatas 3.28: "Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus".
A lógica: Se Paulo superou hierarquias étnicas e sociais, por que não linguísticas? Chamar alguém pelo pronome preferido seria expressão básica de amor ao próximo.
2. Igrejas Têm Histórico Doloroso de Exclusão
Vamos ser honestos.
Mulheres foram silenciadas (1 Coríntios 14.34 mal interpretado). Pessoas LGBTQIA+ foram expulsas. Minorias étnicas marginalizadas.
Ajustes linguísticos — como dizer "irmãos e irmãs" em vez de apenas "irmãos" — podem ser cortesia pastoral que não compromete doutrina.
Afinal, Paulo se fez "tudo para todos" para ganhar alguns (1 Coríntios 9.22). Não seria a linguagem inclusiva uma forma de contextualização missional?
Pesquisas do Barna Group (2023) revelam que 70% dos adolescentes da Geração Z acham aceitável alguém transicionar de gênero, e metade vê gênero como "o que a pessoa sente".
Aqui está o dilema: Para alcançar essa geração, alguns líderes argumentam que rigidez linguística cria barreiras desnecessárias.
3. A Língua Sempre Evoluiu — Por Que Gênero Seria Diferente?
A língua portuguesa mudou radicalmente.
"Você" veio de "vossa mercê". "Obrigado" era "obrigado a servir".
Por que a gramática de gênero seria intocável?
Defensores veem a linguagem neutra como motor de mudança social — assim como a abolição da escravatura exigiu novos vocabulários de dignidade humana.
Pausa estratégica.
Esses argumentos merecem reconhecimento. Igrejas devem ser acolhedoras. Ajustes pragmáticos podem ser sábios.
Mas aqui está a pergunta que muda tudo:
Onde termina a cortesia e começa a capitulação ideológica?
O Mito da Neutralidade: Por Que "Neutro" Não É Neutro
Vamos ao ponto crucial.
Roy Clouser, em O Mito da Neutralidade Religiosa (2020), desmascara a pretensão secular de neutralidade: Todo sistema de pensamento repousa sobre crenças últimas sobre a realidade.
A linguagem neutra não é exceção.
Ela pressupõe três coisas:
- Gênero é construção social arbitrária (não ordem criacional divina)
- Autonomia individual é absoluta (autodefinição de identidade como direito supremo)
- Linguagem tradicional é opressiva (binarismo como mal a ser erradicado)
Esses pressupostos não são neutros. São pós-modernos. Enraizados em Foucault e Butler.
E conflitam diretamente com Gênesis 1.27: "Criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou".
A diferenciação sexual não é acidente cultural. É design intencional que reflete a diversidade na unidade da Trindade.
Quando Inclusão Vira Idolatria: A Crítica de David Koyzis
David Koyzis, em Visões e Ilusões Políticas (2014), define ideologia como absolutização de um bem criado — transformando-o em ídolo salvador.
Vamos aplicar isso à linguagem neutra.
Ela absolutiza "autonomia de gênero" como redenção, competindo com a narrativa cristã de criação-queda-redenção:
- Mal identificado: Binarismo opressivo, papéis de gênero tradicionais
- Salvação proposta: Desconstrução linguística, fluidez de identidade
- Agente redentor: Ativismo progressista, não Cristo
Isso é totalismo secular — uma religião disfarçada.
Como Koyzis alerta, ideologias prometem salvação política/cultural, mas entregam fragmentação. A verdadeira inclusão não vem de pronomes, mas de identidade em Cristo.
Gálatas 3.28 não apaga distinções — as reordena sob nova criação.
A Filosofia Reformacional Tem Algo a Dizer
Hermann Dooyeweerd, filósofo reformacional holandês, ensinou que a modernidade opera sob o motivo básico natureza-liberdade: a tensão entre determinismo científico e autonomia humana.
A linguagem neutra reflete esse dualismo perfeitamente.
Nega a "natureza" (biologia sexual) em nome da "liberdade" (autodefinição ilimitada).
Mas Dooyeweerd argumenta que esferas da vida têm soberania própria sob Deus — a igreja não deve se submeter a ideologias seculares que violam a ordem criacional.
A solução reformacional?
Linguagem guiada pela Escritura, não pela autonomia.
Isso não significa insensibilidade. Significa discernimento: acolher pessoas sem endossar cosmovisões antibíblicas.
Três Perguntas Práticas Que Todo Líder Deveria Fazer
Aqui está onde a borracha encontra a estrada.
Pergunta 1: Igrejas Deveriam Adotar Linguagem Neutra?
Resposta curta: Depende do contexto.
Não como norma litúrgica ou confessional. Alterar referências trinitárias ("Pai e Filho" em Mateus 28.19) obscurece a revelação bíblica. Deus escolheu linguagem relacional (Pai, não "Criador genérico") para comunicar intimidade — não patriarcado opressivo.
Sim para cortesia pastoral em contextos específicos. Chamar alguém pelo nome preferido (não pronome inventado) pode ser gesto de respeito sem endossar autodefinição como absoluta.
Dietrich Bonhoeffer, em Discipulado, distingue graça barata (aceitação sem transformação) de graça custosa (acolhimento que chama ao arrependimento).
Igrejas devem fazer o mesmo.
A distinção crucial:
Acolhimento (1 Coríntios 9.22) ≠ Capitulação (isto é, adotar integralmente pressupostos ideológicos seculares que contradizem a antropologia bíblica)
Paulo se adaptava culturalmente, mas nunca comprometia o evangelho (Gálatas 1.8-9).
Pergunta 2: Como Jesus Praticou Inclusão Verdadeira?
Jesus acolhia radicalmente.
Samaritana (João 4). Adúltera (João 8). Cobradores de impostos.
Mas inclusão não era afirmação de pecado.
Ele dizia: "Nem eu te condeno; vai e não peques mais" (João 8.11).
Transformava identidades por graça. Não alterava termos para validar autodefinições pecaminosas.
C.S. Lewis, em Milagres, argumenta que linguagem humana é "mito eterno" — aponta para realidades transcendentes.
Alterar pronomes de Deus não O torna mais inclusivo. Obscurece quem Ele revelou ser.
A verdadeira inclusão é escatológica: Apocalipse 7.9 mostra multidão de "toda nação, tribo, povo e língua" — diversidade preservada, não apagada.
Pergunta 3: Linguagem Neutra Realmente Reduz Exclusão?
Aqui está o paradoxo que ninguém quer admitir:
Não magicamente.
Exclusão tem raízes em pecado estrutural — violência, pobreza, discriminação.
Estudos mostram que 29% da população brasileira é analfabeta funcional (Inaf 2024).
Pronomes neutros com "@" ou "x" criam barreiras para disléxicos, deficientes visuais e periferias — um elitismo urbano progressista que exclui quem pretende incluir.
Efésios 4.29 orienta: "Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros".
Priorize edificação sobre inovação.
Ações concretas — diaconia, reconciliação, comunidades acolhedoras — transformam mais que ajustes gramaticais.
A Tabela Que Resume Tudo
Vamos visualizar o conflito:
| Aspecto | Argumentos Favoráveis (Inclusão) | Argumentos Contrários (Perspectiva Protestante) |
|---|---|---|
| Impacto Social | Promove visibilidade para minorias (não-binários); remove barreiras ao evangelho (Gálatas 3:28). | Cria exclusões paradoxais (barreiras para analfabetos, disléxicos, deficientes visuais); elitismo urbano vs. periferias reais. |
| Neutralidade Ideológica | Língua viva, adaptável (ex.: evolução do "você"); dignidade via pronomes preferidos. | Não neutra: impõe relativismo secular (autonomia absoluta); mito religioso (Clouser), idolatria (Koyzis), fragmentação (Dooyeweerd). |
| Inclusão Teológica | Acolhimento empático como amor ao próximo. | Superficial: Jesus transformava (arrependimento + graça), não alterava termos; verdadeira inclusão é cristocêntrica (Efésios 4:29). |
O Terceiro Caminho: Discernimento Reformado Entre Verdade e Amor
Timothy Keller, em Igreja Centrada, propõe que igrejas sejam contraculturais e inclusivas — nem liberais (capitulando à cultura) nem fundamentalistas (isolando-se dela).
Aplicado à linguagem neutra:
Cortesia onde possível:
- Use "irmãos e irmãs" em vez de masculino genérico desnecessário
- Chame pessoas por nomes preferidos (não pronomes inventados)
- Ouça histórias de marginalização com empatia
Confissão clara onde essencial:
- Não altere liturgia trinitária
- Não endosse autodefinição de gênero como absoluta
- Ensine Gênesis 1-2 com graça: sexualidade é dom, não construção arbitrária
Foco em ações concretas:
- Crie comunidades onde pessoas LGBTQIA+ sejam ouvidas (não apenas toleradas)
- Ofereça estudos bíblicos sobre identidade em Cristo
- Pratique diaconia que restaura dignidade além de pronomes
N.T. Wright, em Surpreendido pela Esperança, lembra que a nova criação preserva diversidade — não a apaga.
A inclusão eterna não será linguística, mas cristológica: todos os que estão em Cristo (2 Coríntios 5.17) terão identidades restauradas, não desconstruídas.
A Pergunta Que Importa
A linguagem neutra expõe uma tensão mais profunda:
Onde a igreja busca sua identidade?
Em ideologias seculares que prometem inclusão via desconstrução? Ou em Cristo, que inclui transformando?
Romanos 12.2 adverte: "Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente".
Igrejas protestantes devem resistir à pressão de conformidade — não por crueldade, mas por fidelidade.
A verdadeira inclusão não vem de ajustes gramaticais. Vem de comunidades que encarnam a graça custosa de Bonhoeffer: acolhimento radical + chamado ao arrependimento.
Sua Vez de Responder
Aqui estão as perguntas que quero que você considere:
Como sua igreja equilibra verdade e amor?
Você já ouviu histórias de pessoas LGBTQIA+ que se sentiram excluídas?
Como podemos ser fiéis à Escritura sem sermos insensíveis?
Compartilhe suas experiências nos comentários — este diálogo é urgente e necessário.
Que o Espírito nos guie a ser comunidades onde todos — independentemente de identidade de gênero, etnia ou classe — encontrem não pronomes neutros, mas o Cristo vivo que diz: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados" (Mateus 11.28).
Essa é a inclusão que transforma eternamente.
Referências e Fontes
Fontes Teológicas e Filosóficas
- BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Editora Sinodal, 2016.
- CLOUSER, Roy. O Mito da Neutralidade Religiosa. Editora Monergismo, 2020.
- DOOYEWEERD, Hermann. A New Critique of Theoretical Thought. Presbyterian and Reformed Publishing, 1953-1958.
- KELLER, Timothy. Igreja Centrada. Vida Nova, 2014.
- KOYZIS, David T. Visões e Ilusões Políticas. Vida Nova, 2014.
- LEWIS, C.S. Milagres. Vida, 2006.
- WRIGHT, N.T. Surpreendido pela Esperança. Viçosa: Ultimato, 2009.
Pesquisas e Dados
- BARNA GROUP. Who I Am & What Matters Most: Gen Z Study. 2023. Disponível em: https://access.barna.com/studies/gen-z/
- IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/
- INAF. Indicador de Alfabetismo Funcional. 2024. Disponível em: https://alfabetismofuncional.org.br/
- SPIZZIRRI, Giancarlo et al. Proportion of people identified as transgender and non-binary gender in Brazil. Scientific Reports, 2021. Disponível em: https://ibdfam.org.br/noticias/9307/
Fontes Sobre Linguagem Neutra
- G1. Linguagem neutra: barrada pelo STF, lei que proíbe o uso existe em 3 estados e 2 capitais. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/
- UOL. Decisão sobre linguagem neutra afeta 45 leis e projetos de 20 estados. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/
Fontes Bíblicas
- Todas as citações bíblicas são da Nova Versão Internacional (NVI), disponíveis em: https://www.bibliaonline.com.br/nvi/
Blog Teologia Missional
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