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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Um Estudo Sobre a Ressurreição

Por Rodomar Ricardo Ramlow

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Exploraremos um tema fundamental da fé cristã: a ressurreição. Entenderemos como ela forma nossa esperança para o futuro, o que ocorre entre a morte e a ressurreição, e a centralidade dessa crença em nossa fé. Permaneça até o final, pois o que compartilharemos pode transformar sua visão sobre a vida e a eternidade.


Não há cristianismo sem a esperança no futuro. De fato, a fé cristã é consensual em relação à expectativa de um futuro esperançoso.

Essa afirmação nos remete diretamente à realidade da ressurreição. A crença na ressurreição já fazia parte da fé judaica e se distinguia das concepções de vida após a morte presentes nas diversas formas de religiosidade pagã. O paganismo, de fato, rejeitava a ideia de ressurreição.

Para os primeiros cristãos, a "ressurreição" não implicava em um "status celeste e exaltado". No contexto da ressurreição de Jesus, o termo não se referia à "presença percebida" dele na vida diária da igreja. Não era uma questão de fé em um Jesus imaginado como vivo ou presente apenas na memória das pessoas. O que os primeiros cristãos compreendiam e proclamavam com a palavra "ressurreição" era a ressurreição física.

A crença na ressurreição do corpo tornou-se parte integrante do Credo Apostólico, uma das confissões de fé mais reconhecidas e significativas do cristianismo. Neste credo, professa-se que Jesus "foi crucificado, morto e sepultado, desceu à morada dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia" e conclui-se com "Creio [...] na ressurreição do corpo e na vida eterna". A esperança cristã futura repousa na convicção da salvação e ressurreição.

Isso se distingue significativamente de muitas outras crenças que pregam a reencarnação, que colocam sua fé em algum tipo de existência incorpórea e abençoada após a morte, ou que a morte é um portal para o descanso eterno no Sheol. Não está relacionado a nenhuma "ilha dos bem-aventurados" para onde os mortos são destinados, nem tem relação com se transformar em uma estrela a mais no céu ou em um anjo tocando harpa entre as nuvens.

Anteriormente, no judaísmo, a ressurreição era um conceito marginal, mas com o advento da fé cristã, ela se tornou central. Ao estudarmos a ressurreição e sua interpretação nas primeiras igrejas da era cristã, percebemos que o cristianismo nascente era essencialmente um movimento baseado na "ressurreição". A definição de "ressurreição" era clara para eles: significava transcender a morte e emergir para uma nova vida corpórea, um processo que ocorreria em duas fases, iniciando com Jesus e subsequente para todos os fiéis.

A crença na ressurreição é fundamental na tradição cristã, pois os primeiros seguidores de Cristo estavam plenamente convencidos de sua identidade. Assim, eles fundamentaram sua fé inabalável na ressurreição de Jesus de Nazaré dentre os mortos.

Isso se torna claro, por exemplo, nos escritos do apóstolo Paulo. Ele frequentemente discutia a esperança e, ao fazê-lo, referia-se à ressurreição. Ao contrário do que muitos acreditam, Paulo não sustentava a ideia de uma ressurreição puramente espiritual de Jesus.

Vamos considerar o que o apóstolo Paulo escreve em sua carta aos Tessalonicenses: "...e aguardar dos céus o seu Filho, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos: Jesus, que nos livra da ira vindoura" (1 Tessalonicenses 1.10). Também em 1 Tessalonicenses, especificamente nos capítulos 4 e 5, Paulo aborda de maneira notável uma questão comum entre as pessoas: o que ocorre com os que falecem antes da volta do Senhor?

Você já se perguntou sobre isso? Ao ler 1 Tessalonicenses 4 e 5, encontramos várias questões fundamentais sobre as crenças de Paulo acerca da ressurreição. É essencial reconhecer que, ao interpretar a Bíblia, não devemos nunca desconsiderar que seus autores estavam imersos em um contexto social, cultural e religioso repleto de narrativas variadas e uma ampla gama de crenças sobre os mais diferentes temas.

Esta é, evidentemente, a realidade do mundo no qual o Apóstolo Paulo estava inserido e onde ele foi chamado para cumprir sua vocação. Como ele lidava com as diversas ofertas religiosas ao seu redor enquanto afirmava a esperança cristã fundamentada na ressurreição?

Paulo refere-se à "ressurreição" como um evento futuro no qual os que morreram serão levantados da morte. Ele assegura que, assim como Jesus morreu e ressuscitou, Deus também trará, por meio de Jesus, aqueles que faleceram na fé. "Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus trará com Jesus aqueles que nele adormeceram" (1 Tessalonicenses 4.14).

Não há dúvidas, portanto, de que Paulo crê na ressurreição corpórea e que essa ressurreição está reservada ao futuro, quando Jesus retornará.

Mas, e quanto ao estado intermediário? O que Paulo tem a dizer a respeito da realidade daqueles que estão mortos e aguardam o dia da ressurreição? Onde e como ficam aqueles que morrem e estão mortos, aguardando o grande dia da ressurreição? Onde e como estão os mortos, afinal?

Paulo emprega termos que merecem atenção. Se há um período entre a morte física e a ressurreição, é válido questionar a natureza desse intervalo. O apóstolo usa a metáfora do sono para descrever pessoas que "dormem" agora, mas que despertarão no futuro. Isso levanta a questão: estaria ele se referindo ao que alguns denominam 'sono da alma'? Paulo sugere que, após a morte, entramos em um estado de inconsciência, como se estivéssemos dormindo, até a ressurreição? Ou ele fala apenas do sono físico do corpo?

O especialista em Novo Testamento e teologia paulina, N. T. Wright, afirma: 

"Paulo emprega a linguagem de dormir e acordar para contrastar uma fase de inatividade temporária, que não implica necessariamente inconsciência, com uma fase subsequente de atividade revigorada".

Recordando a Jesus, Ele não ressuscitou imediatamente após sua morte. Nem Paulo nem o Credo dos Apóstolos mencionam que Jesus estivesse dormindo no período entre sua morte e ressurreição.

No judaísmo, há indícios de uma crença em vida após a morte, considerada um estado intermediário entre a morte e a ressurreição. No entanto, é difícil encontrar materiais que detalhem onde e como essa existência ocorreria. Há especulações de que os mortos possam viver como anjos ou espíritos aguardando a ressurreição, embora a Bíblia não forneça evidências que sustentem essa noção.

Muitos equívocos podem surgir devido à interpretação precipitada de uma passagem em que Jesus compara os mortos aos anjos. Refiro-me ao episódio em que saduceus, que não acreditavam na ressurreição, desafiaram Jesus com uma questão sobre uma mulher que havia se casado com sete irmãos. No texto de Mateus 22, eles estavam testando Jesus, curiosos sobre como ele responderia. Jesus disse: “Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; são como os anjos no céu” [Mateus 22.30].

Esse entendimento é o que faz muitos acreditarem que as pessoas que falecem se transformam em anjos. Contudo, essa não é a mensagem de Jesus. Ele faz uma comparação diferente: da mesma forma que os anjos não se casam, os seres humanos também não se casarão após a ressurreição.

Jesus não apresenta os anjos como um exemplo completo do que as pessoas serão, mas destaca apenas um aspecto de sua existência, especificamente o fato de não se casarem, para responder à indagação feita pelos saduceus.

No caso do Apóstolo Paulo, suas palavras deixam claro que aqueles que morrem e esperam pelo dia da ressurreição estão com Deus. Sejam conscientes ou não, estão com Cristo, aguardando o dia glorioso em que os justos serão ressuscitados.

Paulo acredita que as pessoas em tal estado intermediário serão felizes e contentes. Afinal, estarão com o Messias. “Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos” [2 Coríntios 5.8-9]

Quando as Escrituras mencionam estar 'nos céus', isso é entendido como estar na presença de Deus. No entanto, isso não implica que alguém que faleceu e está no céu ficará lá eternamente. Deus criou a Terra para a humanidade, e é aqui que habitaremos após a ressurreição. Da mesma forma que seremos restaurados para viver em corpos novos e glorificados, toda a criação de Deus será renovada e liberta da escravidão do pecado.

O equívoco de que o céu é um lugar além da vida terrena é comum na imaginação popular. Contudo, tal lugar não existe como destino final dos fiéis ou dos redimidos. O céu é simplesmente onde se manifesta a presença de Deus. O local destinado à humanidade é a Criação divina, descrita nas Escrituras, e é nela que já habitamos atualmente.

Da mesma forma que o pecado corrompeu o ser humano, ele também desvirtuou o curso das coisas na perfeita criação de Deus. Portanto, assim como a ressurreição representa a completa restauração do ser humano, a Criação de Deus em sua totalidade será renovada para que possamos viver eternamente com Deus.

Não é a Igreja que sobe para algum tipo de céu como realidade espiritual superior. Mas, como lemos no livro de Apocalipse, é “a cidade santa, a nova Jerusalém, que desce do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido” [Apocalipse 21.2].

Nesse mesmo livro de Apocalipse lemos que “Aquele que estava assentado no trono disse: ‘Estou fazendo novas todas as coisas!’” [Apocalipse 21.5]. Todas as coisas… isso mesmo, toda a criação. Não apenas nossos corpos serão renovados! A redenção restaura tudo.

João relata no capítulo 21 do Apocalipse que não testemunhou apenas um céu renovado, mas um novo céu e uma nova terra. Essa compreensão torna a ressurreição muito mais significativa. Assim, transcendemos a ideia de um 'estado intermediário' de repouso ou existência espiritual em um além, para nos concentrarmos em uma vida autêntica, com o ápice do que Deus reservou para sua criação e para a humanidade.

Além disso, podemos começar a desfrutar dessa realidade agora, pois já temos conhecimento dela. Jesus ressuscitou e nós, que cremos, também ressuscitaremos. É possível viver no presente com essa visão renovada e esperançosa. Nossa alegria e satisfação não são expectativas incertas adiadas para um futuro nebuloso, mas sim realidades concretas e tangíveis das quais podemos gozar desde já.

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Rodomar Ricardo Ramlow
Teólogo e professor de filosofia.
Autor do livro Vocação e do Canal Teologia Missional.
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Em seu livro "A Ressurreição do Filho de Deus", N. T. Wright vira a mesa da erudição bíblica contemporânea ao demonstrar que os autores do Novo Testamento acreditavam em uma ressurreição corporal literal de Jesus Cristo, e não numa ressureição meramente "espiritual" inventada posteriormente.
Se você é um estudioso das Escrituras e busca aprofundar o seu conhecimento no tema da ressurreição, então este é um livro indispensável.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Quem é o Seu Ananias?

 

Há quase dois mil anos atrás, numa região distante de nós, vivia um homem enérgico e falador. Porém, não era muito atraente e, por suas origens, costumava ser desprezado. Sua vida consistia em viajar de cidade em cidade, enfrentando muitos perigos e ameaças para anunciar uma poderosa mensagem capaz de transformar vidas. Mas, nem sempre foi assim.A história de Paulo começou como Saulo. Cresceu numa casa onde aprendeu, desde criança, a se localizar em diferentes textos. A Torá, que conhecemos hoje como os primeiros livros da Bíblia, logo lhe foi apresentada. Coisa comum numa antiga casa judaica. Uma casa onde havia a prática de orações e a celebração das festas tradicionais de seu povo. Saulo cresceu como um religioso que se empenhava com zelo por sua tradição. 

Como costuma acontecer nas religiões, o judaísmo da época apresentava suas próprias linhas de pensamento. Saulo caminhou por uma proposta mais zelosa, mais radical, empenhada em garantir um judaísmo puro, fiel à Torá. Para isso, os ímpios teriam que ser duramente combatidos. Para o zelo religioso de Saulo de Tarso, o movimento em torno de um tal Jesus era algo perigoso demais e deveria ser combatido. As coisas espalhadas por homens como Estevão eram considerados um verdadeiro veneno, perigoso demais para ser tolerado. Saulo assiste impassível seus homens apedrejarem até a morte aquela ameaça ao Templo de Jerusalém. As coisas, porém, ainda se complicam muito mais. Imagine que os seguidores daquele galileu, agora, já se agitam anunciando que o crucificado ressuscitou. 

Saulo se empenhava com todo o seu zelo contra esta ameaça ao Templo de Jerusalém. Os primeiros cristãos logo ouviriam falar do impiedoso perseguidor que percorria os vilarejos atrás dos seguidores do Caminho. Não era fácil para eles acreditarem que aquele homem implacável havia mudado. Saulo se torna Paulo quando compreende que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó finalmente fez aquilo que sempre dissera, como aparece na tradição. Paulo entende que a Escritura se cumpre. Sim, ela se cumpre como talvez nem mesmo o zeloso e estudioso Saulo poderia imaginar. 

O impacto daquele evento na estrada de Damasco fez com que o homem iluminado, conhecedor meticuloso das leis, de repente se visse cego, ofuscado por uma realidade que mudaria o mundo. Saulo é tomado pela mão pelos companheiros. Precisa se deixar conduzir para algo novo que estava para se descortinar diante dele. A quem caberia o desafio de ser o mentor nesta nova fase da vida de Saulo? 

Enquanto as coisas aconteciam na estrada de Damasco, Deus já orientava um homem chamado Ananias, encarregado de introduzir Saulo em diversos temas que modelarão sua vida e sua obra daí para frente. Como é característico dos discípulos fiéis e obedientes, Ananias segue para cumprir aquilo que Deus lhe pede. Com alguma ansiedade, preocupação e nervosismo, é verdade, mas, ele segue em frente a fim de cumprir a missão. Encontra Saulo orando e o saúda. Chama-o de irmão. Depois de três dias de turbulência e cegueira, Saulo é apresentado ao seu mentor. Aquele que o ajudaria e o guiaria para uma nova jornada. Surge Paulo. Algo como escamas caem de seus olhos. É batizado. Ele está preparado para passar alguns anos sendo moldado para um novo desafio. 

Paulo é autor de boa parte daquilo que hoje conhecemos como o Novo Testamento. Foi um instrumento precioso nas mãos de Deus a espalhar o Evangelho no mundo antigo. Sua influência e seus escritos atravessaram os séculos e causam impacto ainda hoje, como poucos escritos são capazes. Assim, Deus continua conduzindo a história por meio de homens e mulheres que, de repente, se dão conta de que algo maior está acontecendo. O risco é interpretarmos os tombos pelo caminho como meros acidentes ocasionais. 

Chega o momento em nossas vidas em que precisamos nos deixar conduzir e orientar para novos desafios. Deus usou o apóstolo Paulo de forma tremenda para mudar a vida de muitas pessoas. Antes, porém, existiu um Ananias que estava disposto a se deixar usar por Deus para abençoar a vida de Paulo. Todos nós, em nossa jornada, precisamos de pessoas dispostas a nos tomar pela mão, e caminhar conosco, indicando e orientando os rumos. Quem é o seu Ananias? 
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Leia a cativante reconstrução da vida do apóstolo Paulo feita pelo mais importante teólogo do Novo Testamento da atualidade, N. T. Wright: